28 de junho de 2011

Guess what Troika? We can’t pay your loan either!

Os objectivos expressos no memorando parecem depender exclusivamente da acção do Governo. No entanto, mesmo que todas as medidas expressas no Memorando sejam cumpridas pelo governo (por exemplo, corte de custos no serviço nacional de saúde na ordem dos 550 M€ em 2011), mesmo assim podemos não conseguir cumprir na medida em que os montantes dos cortes têm por trás as previsões de um modelo económico. Este modelo pressupõe crescimento económico em 2013 dependente do investimento privado e das exportações. Como o crescimento da economia que não pode ser realizado por Decreto-lei, o cumprimento do Memorando depende efectivamente das decisões de todos nós: empreendedores, empregados, função pública, reguladores, etc.

Ora, e se o Governo português não conseguir parar a espiral crescente de dívida e se vir obrigado a decretar o incumprimento da dívida?

Quais as alternativas que se colocam a Portugal?

Eu consigo conceber duas soluções extremas.

A) Incumprir no pagamento da dívida e saída do Euro (União Europeia)

Se hoje sabemos que não vamos conseguir pagar a dívida pública, sou da opinião que quanto mais cedo declararmos o incumprimento, melhor. Quando incumprirmos vamos ter, necessariamente, sérias graves medidas de austeridade porque simplesmente não vamos ter novos empréstimos do exterior. Isso significa que as contas do Governo têm de saldar (apenas com o conforto de que serão salvas do serviço da dívida), os nossos investidores/empreendedores têm de se suportar apenas nos aforradores nacionais. Adicionando, a falência dos bancos nacionais temos o cenário montado para a maior recessão que atingiu Portugal desde 1900 (não me apetece estar a pensar se antes houve uma maior).

Ora, o Memorando imporá uma recessão média até 2013 o que levantará a inquietação social com greves, aumento de desemprego, deterioração da qualidade de vida média dos portugueses. Se deixarmos passar estes anos e apenas aí decretarmos o incumprimento, teremos sofrido 2 anos em vão na medida em que o cenário catastrófico que descrevi se debruçaria sobre os portugueses, não obstante qualquer austeridade prévia…

Nesta opção apenas falta referir que existe a forte possibilidade de, caso declaremos o incumprimento contra a vontade dos nossos parceiros europeus, sermos expulsos do Euro. Como os actuais tratados da União Europeia não prevêem qualquer saída do Euro, isso implicaria que Portugal teria de sair da União Europeia.

O que acho estranho é os países ricos da Zona Euro continuarem a ignorar os “gritos de revolta” da população grega e continuarem, calmamente, a agravar as reformas impostas ao país, alargando-as até aos outros países sob apoio financeiro (Irlanda e Portugal).

B) Solidariedade financeira dos países do Euro

Após o apoio financeiro de 75 mil milhões de euros, a Troika ficará com aproximadamente 50% da dívida portuguesa.

Imbuída de um espírito de solidariedade, não querendo despedaçar a Zona Euro, a Troika poderia indexar o pagamento da dívida à capacidade de Portugal crescer. Ou seja, seriam impostas reformas a Portugal para restaurar o crescimento económico. Quando o crescimento económico trouxesse excedentes fiscais suficientes, então o empréstimo da Troika seria remunerado em termos pré-acordados sempre tendo em atenção a manutenção da competitividade da economia e do crescimento económico.

Penso que esta deveria ser a forma dos nossos parceiros europeus nos ajudarem e não através deste empréstimo que simplesmente substitui a anterior “ajuda” dos investidores internacionais – ou seja, meramente substitui aquilo que já hoje não conseguimos pagar.


Para concluir, resta-me resumir que espero que o cenário A não se concretize. Infelizmente, o cenário B não será atingido no curto/médio prazo devido à burocracia existente nos fóruns de decisão europeus e às opiniões públicas dos países mais ricos.

Penso que a melhor opção para Portugal é tentar fazer o máximo de reformas ao nível do Governo para eliminar o défice – já que, em qualquer um dos cenários, assim o terá de fazer –, esperar que os países da Zona Euro ganhem alguma consciência social subjacente ao projecto de construção europeia e alterem os termos do empréstimo acordado, tornando-o, de facto, numa ajuda.

19 de junho de 2011

Vanity Fair - Sociedade Grega (II)

Como o artigo é um pouco extenso, ficam abaixo os principais pontos do artigo. Espero que desperte a curiosidade para a leitura do artigo na íntegra.


Principais pontos:

Execução orçamental

- Ministério das Finanças sabia o orçamentado mas não controlava a execução orçamental.
- Governos anteriores ao actual esconderam 800 mil milhões de euros de dívida em derivados com a ajuda do Goldman Sachs.

Cobrança de impostos
- Os tribunais demoram 15 anos a julgar um caso de fraude fiscal/fuga aos impostos. Demoram 8 anos a julgar casos de corrupção dos inspectores das finanças.
- Tais factos impediam a cobrança de impostos pelo que se estima que a economia paralela ronde os 40% do PIB.
- Para ajudar a situação, em anos de eleições o governo dá instruções aos inspectores de finanças para que não façam o seu trabalho.
- Todas as profissões liberais declaram o rendimento mínimo para não pagar imposto. Consideram que, se a lei fosse aplicada, todos os médicos do país seriam presos!
- Os prevaricadores podem lavar o dinheiro através da compra de imobiliário uma vez que a Grécia é o único país na Europa sem registo nacional de propriedade imobiliária...
- Por tudo isto, os gregos embora sejam bastante hospitaleiros, entre si são pessoas desconfiadas não conseguindo elogiar ninguém porque têm quase a certeza de que essa pessoa está a fugir aos impostos.

Estatística
- Os números do défice e da inflação eram constantemente cozinhados no sentido de cumprirem com os valores definidos no PEC. O exemplo de como o responsável do departamento de estatística, conhecido entre os banqueiros de investimento como "The Magician", chegou a trocar as laranjas (mais caras) por limões na composição do índice de preços é simplesmente surreal.

Reformas
- A reforma para profissões de desgaste rápido era aos 55 para os homens e aos 50 para as mulheres. No entanto, cerca de 600 profissões conseguiram ser classificadas neste tipo, entre elas incluem-se: cabeleireiros, empregados de mesa, músicos, locutores de rádio, etc.

Conclusão
- A parte peculiar da estória é que os gregos aceitam estes roubos de dinheiro público de forma ligeira porque é um mal já entranhado na sociedade. Todos o fazem, ou conhecem alguém próximo que o faça.
- No entanto, quando um grupo de monges, os Vatopaidi, conseguiram benefícios ilegítimos do governo, como os gregos não os consideram pertencentes à sua sociedade, indignaram-se, exigiram a queda do governo e o apuramento de responsabilidades.
- Isto foi no final de 2009, mal entrou em funções, o novo governo admitiu que as contas não estavam bem feitas. Reviu os valores do défice para números assombrosos. O rating foi cortado. E, desde então, a história é conhecida.

18 de junho de 2011

Vanity Fair - Sociedade Grega

Pra o fim de semana recomendo a leitura de um artigo da Vanity Fair que descreve o funcionamento da sociedade Grega no pré-crise.

Retrata e dá a perceber a razão de estarem na complicação em que estão metidos.

Aqui fica o link.

P.S.: O artigo é um pouco extenso mas vale a pena. A parte dos monges apenas justifica o escândalo que provocou a mudança do governo no final de 2009, por isso podem passar à frente.

16 de junho de 2011

Bailout Nation - Barry Ritholtz

Bailout Nation é um livro de um analista que tenho seguido ultimamente: Barry Ritholtz que escreve no The Big Picture.

É um livro editado logo após o início da crise financeira, em 2009, que consegue retratar de forma lúcida os eventos da crise e seus principais responsáveis.

Para mim a parte mais interessante é o enquadramento histórico e organizativo da regulamentação da economia dos EUA. O autor relaciona toda a desregulamentação e forma de condução da política monetária (por exemplo, a Greenspan Put) com a tomada excessiva de riscos realizada pelas instituições financeiras que, inevitavelmente, levou à crise iniciada em 2008.

É impressionante como as políticas seguidas após a grande depressão de 1929 foram totalmente esquecidas, sendo revogadas ao longo do tempo, principalmente na era de Alan Greenspan enquando presidente da Reserva Federal Americana.

Ritholtz evidencia a inconsistência filosófica nos defensores da liberdade dos mercados. Estes consideravam que as instituições financeiras deveriam auto-regular-se sem qualquer intervenção do Estado. Ora, quando estas instituições começaram a entrar em dificuldades, estes mesmos defensores do capitalismo selvagem, foram os primeiros a defender a intervenção do Estado para salvar estas empresas em vez de defender a sua insolvência.

Este tipo de organização económica é o pior possível para o capitalismo: é aquele em que os lucros são privados e os prejuízos são nacionalizados.

O grande contributo deste livro é demonstrar soluções alternativas à forma de como esta crise foi tratada pelos responsáveis políticos implicando grandes prejuízos para os contribuintes. O que mais me impressionou é que algumas destas políticas foram já comprovadas historicamente.

Um livro a não perder!

Citações interessantes:

“Capitalismo sem falências é como religião sem pecado”

“A regulação não é para os mercados, mas para os intervenientes do mercado”